O espetáculo “Hécuba” é uma tragédia grega escrita em 424 a.C., pelo dramaturgo grego Eurípides, adaptado para uma linguagem contemporânea, pelo consagrado diretor brasileiro, Gabriel Villela.
Vem sendo apresentado no teatro “Vivo”, av. Dr. Chucri Zaidan, 860, Brooklin, fone 7420 1520 – sexta 21hs30; sábado 21hs00 e domingo 20hs.00 -
R$40,00 (sexta e domingo) e R$60,00 (sábado) – estacionamento com manobrista R$15,00 – até dia 18 de dezembro.
Assistir a este espetáculo é uma oportunidade única, pois nestes idos do séc. XXI poucos diretores e produtores se aventuram em encenar este autor.
Walderez de Barros, atriz global, interpreta a personagem título, seguida por um elenco de garra, que não poupa esforços para passar ao público suas interpretações e reações emocionais, transmitindo assim uma visão, não só de um drama do séc. V a.C. nos dias de hoje, como perceber, que este drama pode estar acontecendo neste momento em qualquer parte do mundo, com personagens diferentes, mas com o mesmo teor de dramaticidade.
É inegável que, para assistir um drama como este é necessário um conhecimento prévio e básico do desenrolar da história, no caso a guerra de Tróia com os gregos.
Nas primitivas representações mímicas na Grécia Antiga, as máscaras eram dotadas de feições animais. Com Téspis, jovem ático, segundo a lenda o primeiro ator de teatro grego, este importante elemento cênico adquiriu traços humanos.
Com Ésquilo, a máscara recebeu novas cores, porém conservou apenas um ricto facial. Mais tarde, Fídias enriqueceu-a com variadas gamas de expressão.
Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, tragediógrafos gregos enriqueceram a cena com inovações.
Nesta época, a montagem de todos os espetáculos teatrais cômicos ou trágicos, era incumbência de “córego”, homem poderoso e amante das artes, este não só financiava a encenação, como reunia os poetas, atores e artesãos necessários para tanto.
Hécuba, rainha de Tróia, mãe de vários filhos, vendo-os morrer um a um busca, através de apelos justos e sentimentais uma solução para resolver seus problemas e suas ansiedades...
Mulher de fibra, que de soberana passou a ser escrava e finalmente foi transformada pelos deuses em um cão, para continuar sua nova vida, transformação esta, sutilmente sugerida pelo latir e rosnar de um cão ao longe, no final do espetáculo.
O que o diretor Gabriel Villela fez com o original de Eurípedes foi uma transmutação, uma nova Hécuba, que manteve suas características originais, mas misturou-as a todas as culturas atuais, provando que o acontecido na antiguidade, acontece também nos dias de hoje - as disputas, as guerras, as dissidências... na maioria das vezes com resultados também desastrosos.
Não há quem não se emocione com sua dor de mãe e sua revolta pela perda da identidade nacional. Tróia derrotada, já não era mais a sua Tróia, mas ela a amava, talvez ainda mais.
Não se pode deixar de falar também dos vestuários, pois ao mesmo tempo, que eram individuais, se universalizaram, podendo assumir facetas de várias culturas diferentes, assim como os acessórios, máscaras, ornamentos, estandartes com máscaras de metal... Em tudo foi pensado, para ocupar bem o espaço no palco e enviar ao espectador uma mensagem simbólica. Hécuba deixa de ser apenas a heroína grega, para se transformar em todas as mulheres, de todas as culturas caldeadas, que mesmo de coração despedaçado ainda acham forças para derrotar o inimigo traidor.
Neste contexto pode-se dizer que o “córego” Gabriel Villela esteve brilhante em seu empenho de realização.
Para aqueles que têm preconceito frente à Arte Contemporânea, a reação ao espetáculo, poderá não ser agradável, pelo contrário será chocante e talvez ilógica.
Sugere-se ao espectador, que procure se envolver com a contemporaneidade das artes cênicas, visuais, musicais... entre outras, cujo grande objetivo é levá-lo a refletir sem preconceito sobre o que vê e ouve, pois estamos vivendo uma época de mudanças de pensamentos; de transformações tecnológicas e de diferentes maneiras de se ver o mundo...
A cidade de São Paulo, já é conhecida nacionalmente como “grande centro cultural da América Latina”, qualificativo realmente merecido, corroborado nesta oportunidade em que estão acontecendo a exposição “Em Nome do Artista” no prédio da Bienal, no Ibirapuera e a peça “Hécuba” no teatro “Vivo”, no Brooklin, que marcam um momento especial, na apresentação e divulgação da Arte Contemporânea.
Antônio Santoro Júnior
Professor de Estética e História da Arte – Faculdade de Belas Artes, Museólogo e Crítico de Arte: APCA-ABCA-AICA